Por Eudes Cruz
“Creio que uma forma de felicidade é a leitura.” – Jorge Luis Borges

Ler pode até ser um ato solitário, mas cada vez mais leitores querem compartilhar suas impressões sobre as obras lidas. Os clubes de leitura têm se espalhado pelo país. Trata-se de um fenômeno que não é recente e tem conquistado cada vez mais espaço.
Há muita gente lendo por aí. Os clubes de leitura são uma forma de reunir as pessoas depois da tarefa solitária da leitura.
Nos encontros, é possível conversar sobre os livros, expor ideias, trocar experiências e reunir amigos.
A origem
Os clubes do livro podem parecer um movimento novo, mas deles se tem notícia desde o século XVIII, época em que puritanos americanos reuniam-se em grupos para estudar o livro até hoje mais vendido no mundo, a Bíblia.
Os aristocratas e burgueses da França, advindos do Iluminismo, se reuniam em seus palacetes para a leitura e debate de ideias. Os salões foram o centro da vida social e intelectual da sociedade daquela época. Entre os mais conhecidos figuraram os de Deshoulières, de Sablière, da condessa La Suze e o de Ninon de Lanclos. Tais salões eram locais em que imperava a tolerância, a irreverência e a diversidade, posto que acolhiam ateus, deístas e libertinos.
Na França, a dinâmica das relações entre os frequentadores, as leituras proibidas que faziam em público, a liberdade com que atuavam e a troca de livros e ideias, fizeram dos salões um importante agente do Iluminismo.
Os salões tiveram grande importância na Revolução Francesa, da qual se origina uma das representações famosas expressadas na arte, mais precisamente em um quadro de Lemonnier (1734-1824).

Em 1868, jornalistas mulheres foram impedidas de participar de um evento literário nos Estados Unidos. O motivo? Simplesmente por serem mulheres. Uma das jornalistas teve a iniciativa de criar um clube de mulheres, o Sorosis, que tinha por finalidade o estudo e a leitura. Naturalmente, o clube serviu de inspiração para outros tantos que surgiram por meio de associações femininas na segunda metade do século XIX.
Clubes de gente famosa
Oprah Winfrey, a famosa apresentadora americana, organizou um clube do livro chamado Oprah’s Book Club, criado em 1996. Em seu programa, os convidados, incluindo o autor, dividiam suas impressões pessoais sobre a obra. Dada a fama da líder do clube, alguns títulos que passaram por lá tiveram suas vendas significativamente aumentadas. Veja-se como exemplo o primeiro livro escolhido por ela, Nas Profundezas do Mar Sem Fim, da escritora Jacquelyn Mitchard: de 100 mil cópias a venda subiu para 915 mil. Certamente pela representatividade de Oprah, ela serviu de inspiração para a criação de muitos outros pequenos clubes de leitura.

A adorável Hermione Granger de Harry Potter, ou melhor, a atriz que interpretou a personagem, Emma Watson, tem um clube de leitura. Com formação em Literatura Inglesa a atriz criou por meio de uma plataforma seu clube de livro feminista. Por lá ela já indicou livros como Só Garotos, de Patti Smith e Persépolis, de Marjane Satrapi.
No universo virtual
Com o advento das redes sociais, há a possibilidade de muitos debates acontecerem de forma virtual, utilizando-se uma das redes disponíveis. Um exemplo é o grupo de Facebook denominado Devoradores de Livros, criado por Nazaré Siciliano.
Com mais de 6800 membros de todo o Brasil, no grupo os leitores postam suas impressões sobre as obras lidas, criam desafios de leitura que tem por objetivo falar de livros de gêneros diversos e tirar o leitor de sua zona de conforto, além de compartilhar todo tipo de informação em torno dos livros.
Para 2019, por exemplo, foi criado um desafio em que cada mês o leitor seleciona um dos três temas sugeridos, lê a obra com aquele tema e depois posta suas observações no grupo, permitindo que outras pessoas interajam e apresentem sua visão. Além disso, ao longo do ano, subgrupos se formam para debater um livro de determinado gênero.

Um clube pelo whatsapp reúne 42 pessoas e lerá ao longo de 2019 as obras de Stephen King. Parceria entre dois instagrans literários (@seguelendo e @soterradaporlivros) o clube chamado Lendo King tem Karla Lima como uma das organizadoras. “Leremos obras do Stephen King em 2019, em ordem cronológica dos lançamentos”. O grupo faz o debate pelo aplicativo de mensagens “Debatemos a obra determinada para aquele mês, em um dia e horário determinado”, complementa Karla.
Clubes de Leitura Presenciais
Do grupo virtual Devoradores de Livros originou-se também o Clube de Leitura Devoradores de Livros que tem ações de membros em São Paulo e Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o CLDL – como é chamado pelos integrantes – debateu os livros Dom Casmurro (Machado de Assis), Não Durma (Michelle Harrison), A Mulher na Janela (A. J. Finn), Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas (Paula Febbe), Eu Vejo Kate (Cláudia Lemes) e A Hora da Estrela (Clarice Lispector). Este último foi o livro que fechou o encontro dos leitores no ano de 2018, em evento realizado no Centro Cultural São Paulo. Pela seleção apresentada, nota-se claramente a diversidade de autores e estilos que o clube permite.
A escolha do livro a ser lido é feita pelos próprios participantes que, além de se comunicarem pela rede social, mantém contato por aplicativo de mensagem. Uma vez escolhida a obra, o grupo lê e marca uma data para que a reunião e o debate ocorra, o que pode ser feito em um parque, uma livraria, um centro cultural ou qualquer outro espaço que possa receber as pessoas dispostas a debater ideias e conversar sobre o que leram. O grupo não tem apoio de editoras, é independente.
Daniela Moraes, uma das integrantes comenta: “Participar do Clube de Leitura Devoradores do Livro é uma experiência muito gratificante e, confesso, por vezes desafiadora, pois faz com que eu saia da minha zona de conforto. Esse é um dos grandes méritos de um clube de leitura: provar que podemos sim nos desafiar a ler outros gêneros que, normalmente, não procuraríamos por conta própria. Sem contar que é maravilhoso poder debater com outras pessoas sobre o livro lido. A troca de experiência é muito enriquecedora, pois às vezes o outro teve uma percepção totalmente diferente da nossa e, quando conhecemos seu ponto de vista, podemos enxergar alguns aspectos da obra que, durante a leitura individual, passaram despercebidos”.

A troca de experiências vai para além das obras lidas. Os integrantes do grupo se confraternizam com troca de livros usados, sorteios de livros e brindes, além de estreitarem os laços de amizade.
Eva Majzoub, outra integrante do Clube de Leitura Devoradores de Livros reforça a importância da convivência com o grupo: “Não consigo me imaginar sem esse grupo tão especial.”
Outro clube de leitura conhecido em São Paulo é o Café Literário SP, que ocorre mensalmente, no último domingo de cada mês na Biblioteca Mário de Andrade localizada na região central da capital paulista e tem como idealizadora e curadora a professora Janaína Soggia. As reuniões aconteciam na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, desde de 2016, mas em função da procura dos participantes, a organizadora buscou um lugar maior.
A lista de livros que serão apresentados em 2019 está disponível na página do Facebook do Café Literário SP. Entre os livros estão O Segundo Olhar (Mário Quintana), De Repente nas Profundezas do Bosque (Amós Oz), Bestiário (Júlio Cortázar), Olhos D’Água (Conceição Evaristo) e o primeiro do ano será A Ciranda das Mulheres Sábias (Clarissa Pinkola Estés).
O Centro Cultural de São Paulo abriga o Clube de Leitura Leia Mulheres, um coletivo que tem por objetivo estimular o debate e a divulgação de livros escritos por mulheres. Criado em 2015, as organizadoras do projeto são Juliana Gomes, Juliana Leunroth e Michelle Henriques. O primeiro encontro de 2019 terá como tema o livro Jane Eyre, da britânica Charlotte Brontë. O romance foi publicado originalmente em 1847. Outras informações sobre o clube podem ser obtidas no site do Centro Cultural São Paulo.
Clubes de assinatura
Uma outra modalidade de clubes são aqueles por assinatura. O surgimento data de 1926 com o Book of Month, nos Estados Unidos. Escritores ou críticos escolhiam uma lista de livros e os assinantes selecionavam o que gostariam de receber.
No Brasil também aconteceu algo parecido. O primeiro foi o Clube do Livro, que funcionou de 1943 até 1989 e foi criado por Mário Graciotti.
Em terras brasileiras também funcionou o Círculo do Livro, criado pela Editora Abril. A iniciativa teve início no ano de 1973 e continuou ativa até 1993.
Hoje alguns projetos similares existem no país. Basicamente o leitor faz a assinatura de uma das opções que a empresa disponibiliza e, mensalmente, recebe em sua residência uma caixa com livros e brindes. Alguns desses clubes optam pela curadoria de algum escritor ou escritora que indica o livro enviado aos assinantes no mês. Até algumas editoras apostaram nesse segmento e tem seu próprio clube de assinatura, como o Intrínsecos (da Editora Intrínseca).
Pode parecer que a graça do clube acaba por aí, mas não. Depois que os leitores recebem suas obras e efetivam a leitura, acabam também formando grupos presenciais ou discutindo por meio das redes sociais os livros que leram.
Com diferentes formas de atuação e de decidir o livro que será enviado, cabe ao leitor pesquisar os clubes de assinatura disponíveis e ver aquele que melhor atenda sua necessidade. Inclusive, há clubes de assinatura especializados no público infantil, o que é uma excelente forma de estímulo à formação de novos leitores.

Clube de leitura nos presídios
Em maio de 2018 a Revista Galileu publicou reportagem sobre clube de leituras realizados em presídios, nos quais, segundo a matéria, a média de livros lidos no ano chega a 12, contra 4,96 da média geral (dado da Pesquisa Retratos da Leitura 2016).
O Conselho Nacional de Justiça incentiva a leitura, sendo que a cada livro lido pelos presidiários, a redução da pena é de quatro dias, ou seja, com a leitura de um livro por mês os presos podem reduzir o período de reclusão em até 48 dias em um ano.
Iniciativas como essas também acabam por formar um público leitor que antes não tinha o hábito de leitura e resgatam a autoestima de quem se vê longe da sociedade. Como dizia José Saramago: “A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar”.
Nota: texto publicado originalmente na Revista Conexão Literatura de janeiro de 2019.




